segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Episódio de hoje: TODA MULHER É COMÍVEL


Entre o metrô e minha casa, ando uns 10 min, geralmente escutando musica. Dessa vez estava ao som da nossa diva linda Conka, quando, de repente, escuto atrás de mim o seguinte diálogo:
- Ela mora ali naquela ladeira que a gente passou. A casa vai tá vazia, aí rola, pô 
- Sim velho, mas calma, eu tenho que ver as coisas como são, sei lá, se ela é comível né..
- Não tem isso não, toda mulher é comível !
- É...
Pra sorte deles, eu virei imediatamente, olhei nos olhos desses dois meninos de aparentemente 15 anos, iniciando suas vidas sexuais, e com muita tranquilidade disse:
- Vocês sabem que dessa mesma maneira que vocês estão falando, outras pessoas falam de suas mães, suas irmãs (se tiverem) e de todas as suas amigas. Né ?

Para a minha surpresa, tinha uma menina ao lado deles, em silêncio desde que eu comecei a escutá-los e assim permaneceu, no seu canto, acredito que fosse amiga porque parecia ter a mesma idade e estavam com a mesma farda de escola. No final do meu questionamento, respirei mais uma vez e olhei dentro dos olhos dela que foram se abrindo e dirigidos, com o cabeça menos baixa, aos meus. Todos ficaram sem palavras, apenas com os olhos meio arregalados, surpresos e sem reação. Coloquei de volta os fones e segui meu rumo.
Segui imaginando que tipo de homens eles serão. Se vão virar adultos sempre disponíveis para se relacionar sexualmente, inclusive, quando não estiverem tão afim. Se gozarão sempre (caso não broxem) sem nem se importar se a parceira está sendo também satisfeita, que dirá, se ela gozou. 
Se gozarão em 4 min e acharão que o sexo acabou, sem nem se preocupar em tentar controlar a sua super precoce ejaculação (não estou falando de distúrbios). Se irão insistir para transar sem camisinha mesmo sem ter a mínima garantia que essa mulher não possui alguma DsT(muitas pessoas não fazem ideia se contraíram ou não DsT's). Se irão continuar praticando sexo inspirados em pornôs que, estrategicamente, para enquadrar a penetração, deixam os corpos quase sempre afastados (como se fosse possível gozar sem o atrito com o clitóris); Se vão achar que sentem mais desejo e necessidade de esvaziar os ovos do que qualquer mulher e que isso é natural do homem ? (...)
E essa menina ? Caso venha ter relações heteronormativas, será que vai achar que a manutenção do prazer do homem é mais importante que o seu? Vai ceder ao não uso da camisinha só por pressão, mesmo sem confiar realmente no parceiro ? Vai achar que é aceito fazer menage, podendo até ceder mesmo sem ter tanta vontade assim pelo namorado, mas nunca nem passará pela sua cabeça transar com dois homens e como isso deveria ser tão naturalizado quanto? Vai se dispor a fazer posições que não se sente confortável e segura, e achar que tem obrigação de realizar garganta profunda e ser banhada de gala como se fosse Xuxa passando monange? Será que essa menina vai se julgar e julgar até mesmo suas outras amigas pela quantidade de parceiros ? Será que ela vai acreditar que todo homem que procura ela é porque a acha uma pessoa interessante e no mínimo quer compartilhar bons momentos (sim sim sim, pode ser " só sexo", sem um pingo de moralismo, mas estou falando de compartilhar e não objetificar!)? Será que ela vai fingir que gozou só para não desapontar o ômi e mostrar o quanto ele transa mal ? Ou pior, vai fingir que gozou para adiantar o final da relação de tão entediada e seca que ficou ? Será que ela vai achar que é de boa não gozar de vez em quando, sendo que o parceiro sempre goza ? Será que ela vai ter coragem de ser protagonista do seu real prazer e exercitar o auto-conhecimento para avaliar criticamente se o que faz e deixa de fazer, se o que gosta e deixa de gostar é uma descoberta individual ao mesmo tempo que é também compartilhada ? Vai entender o que é apropriar-se de seu corpo e emancipar-se de fato? 
Espero, sinceramente, que outras mulheres que já estão processando ou ao menos se questionando sobre os privilégios masculinos e os dados falsos privilégios femininos cruzem o caminho dela e, principalmente, o daquela menina que quase esquecemos, a do começo da história, que quando não é totalmente invisibilizada é categorizada como comida fácil. Aquela mesma da ladeira.

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