segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Certos tipos de "elogios" desconstrua já ou cale-se para sempre


Desde quando eu comecei o processo de assumir e me divertir com minha juba, a quantidade de olhares, perguntas e certos elogios se multiplicaram.
A parte mais legal de todas e que sempre me emociona é quando participo diretamente da transição capilar de meninas/mulheres, em especial das pretas. Não há nada mais gratificante pra mim, do que ver essas mulheres com outro brilho nos olhos, se amando mais, se sentindo preta, poderosa e linda. Mas entre os "elogios" que recebo já escutei algumas vezes por pessoas desconhecidas, semi-conhecidas e conhecidas que em MIM combina esse cabelo porque meu cacho é mais solto, ou pior, que apesar de eu ter um bocão, ainda preservo traços finos no rosto por isso fica bem. Já disseram até que adoram meu black (??). Essas coisas todas não são elogios, são expressão de racismo! Não quero ocupar o lugar de exótica, não dessa maneira. É como se eu tivesse licença pra ter características de mulheres negras porque sou branca. Isso me dói bastante e fico muito triste em escutar esse tipo de coisa, não me sinto nem um pouco mais bonita. E se dói em mim que apesar de ter crescido na influência dos caboclos e guias da minha vó, por tocar maracatu, por ser muito bem vinda em lugares de resistência negra em geral, imagine na cabeça das meninas que não tiveram a chance ainda de construir sua auto-estima, de se ver bonita, de se ver negra. Sofro muito com o racismo, mas pelo simples fato de ter nascido com a pele branca, nunca irei saber o que é sofrer racismo. Se atentem nas brincadeiras e nesses "elogios" porque reconhecer meu lugar de privilégio foi fundamental para perceber como é sutil e delicada a construção do empoderamento das mulhereS que me cercam.

A era das rainhas, das leoas, das pretas multi-coloridas CHEGOU!

Nota de desabafo:

 Entre as milhares de possibilidades que um homem tem de combater o machismo achar que pode ter a prepotência de ensinar a uma de nós como DEVEMOS nos posicionar a partir da sua fala é carimbar seu selo de idiota arrogante. Sim, acredito nas boas intenções, na ingenuidade, na falta de senso em saber que não falamos do mesmo lugar, na própria falta de conhecimento e vivência, no não praticar o exercício de se reconhecer como privilegiado (querendo ou não), enfim... entendam de uma vez por todas: TOD@S NÓS podemos lutar contra qualquer tipo de opressão, mas não é se colando como protagonista, tomando nossa fala, nos silenciando e querendo ter razão sobre algo que você não sente que ajudará em alguma coisa. Por favor, não gastarei mais meu tempo tentando convencer alguém de que não tem o direito de tentar me convencer sobre algo que não sabe com a desculpa de " é minha opinião...". Fico esgotada emocionalmente com algumas "conversas" e toda essa energia poderia ser depositada para mim mesma, na minha luta diária, para quem realmente me sente ou precisa urgentemente da minha escuta, da minha companhia, do meu sorriso, de algumas palavras de força. Quer ajudar? ESCUTE, se toque, se veja, se descubra, vá direto ao ponto e converse com outros homens quando tiver oportunidade, interfira na conversa com os amigos, nas "piadas", nas injustiças, ao invés de querer me ensinar o que é feminismo e o que minhas irmãs devem ou não fazer para combater o machismo. Tenho o direito de ficar emocionada, chorar, ter raiva e pra mim isso não é sinal de fraqueza, isso não deslegitima ou desqualifica o que digo, isso é sinal de cansaço. Estou realmente muito cansada.
Seguimos.

"Tava só esperando ele meter a mão nela pra chegar lá"


Estava perto do farol da barra ontem a noite, por volta das 20:30 e escutei uns gritos de mulher, de primeira achei que fosse no mar, já que é comum as pessoas ficarem por lá brincando. Depois continuei escutando e identifiquei "você tá me machucando", fui na janela novamente e lá estava um homem alto e aparentemente "forte" segurando uma mulher mais magra e menor que ele pelo pulso e braço. Meus olhos não acreditaram naquilo, dei um grito da janela " ô rapaz ", mas não foi o suficiente para mais de meia duzia de outros homens que estavam dividindo a mesma calçada da cena e os que estavam de passagem, se manifestarem. Desci imediatamente para intervir e ajudar a mulher que estava chorando inclusive. Cheguei perto e disse " Largue ela agora! " Ele virou me pegou pelos braços muito forte e disse que eu era uma estranha e que não entendia o que estava acontecendo. Eu olhei nos olhos dele, mesmo ele desviando o olhar, e mandei ele me soltar. Ele frouxou as mãos mas continuou tentando me explicar que ela era namorada dele e que sempre fazia isso, me empurrando...Eu disse que não importava o motivo e que ele ia deixar ela ir pra casa pra depois conversarem. Claro que naquele momento eu fiquei com vontade de dá um murro na cara dele, mas tentei ser o mais inteligente possível, mesmo porque eu não sabia do que era capaz o sujeito, mas já nesse momento meu companheiro e outro homem estavam intervindo. A menina agredida continuou chorando e eu fui atrás dela para tentar de alguma forma assistência-la. Me disse que havia batido a cabeça, que ele a deixou sozinha por meia hora e que agora tava querendo que ela acreditasse em alguma coisa, não entendi direito a história, mas não podia segurá-la. Apenas disse pra ela tentar se acalmar e ir pra casa, não deu tempo nem de oferecer um táxi porque enquanto ela corria pra outra direção, dois policiais chegaram altamente despreparados puxando arma(símbolo máximo da IMPOTÊNCIA militar) na minha e na frente de todos que estavam por perto, colocando nossa segurança em risco. Então fui me afastando e perdi a moça de vista. Saí esbravejando que precisava eu sozinha descer e separar o cara da menina, que o que eles acreditam ser masculinidade não existe e não serve para absolutamente NADA! Fiquei observando de longe e logo depois que o cara falou algumas palavras eles o liberaram e nem foram atrás da vítima confirmar ou assistência-la, ainda que minimamente, era obrigação deles!!!! Acredito que esse "casal" estava acompanhado de alguns amigos que apareceram depois, mas até o homem que tentou ajudar quando eu intervi disse: "tava só esperando ele meter a mão nela pra chegar lá". COMO ASSIM? Eu entendo as mulheres terem medo de se posicionarem em uma cena como essa, mesmo porque somos ensinadas e coagidas a acreditar que somos fracas e frágeis, mas vários homens juntos não se importam nem pra dizer "ô cara, relaxa.." e só ajudam quando aparece um roxo no olho, uma costela fraturada, é isso? O resto todo não é violência? É tranquilo ainda né, afinal, em briga de marido e mulher não se mete a colher. Eu tenho nojo do homem que agrediu a menina, assim como tenho nojo de todos aqueles que não mexeram e nunca mexem um dedo para diminuir a estatística de violência contra mulher no Brasil. Se não há lugares seguros nem pra gente transitar sem sermos assediadas e ameaçadas por estes homens, se não há lugar seguro para nós, mulheres, não haverá lugar seguro para vocês nos violentarem mais também!! Vou me meter, iremos nos meter, porque o problema é NOSSO. Não tenho medo de homem impotente!! Sempre tento ser estrategista e pacifica nos meus dias, nas inúmeras conversas que tenho com os que acham que estão me elogiando na rua, simplesmente não abaixo mais minha cabeça. Não abaixem a cabeça de vocês também! Não me peçam pra ter cuidado, nem me ofereçam méritos, fiz o que tinha que ser feito, o mínimo. Prefiro sair apanhada do que deixar uma irmã ser violentada na minha frente e não fazer nada.
Seguimos.

Dia dos pais

Se existem 5,5 MILHÕES de crianças sem o nome do pai no registro, imagine a quantidade de homens que só serviram como contribuidores de sêmen. Imagine a quantidade de "pais" que abortaram sem sofrer nenhum tipo de consequência física ou psicológica, nem morreram. Imagine a quantidade de "pais" que o máximo que conseguem fazer é pagar uma pensão e ir tirar onda de bom pai passeando no final de semana. Imagine a quantidade de "pais" que acham que ser pai é ajudar de vez em quando nos fazeres domésticos e na própria educação do filh@, julgando-se mais que suficiente. Parabéns aos pais, que compreendem minimamente essa palavra e que não acham que são algum tipo de herói por fazer algo que milhares de mulheres fazem todos os dias sem serem consideradas heroínas!

Episódio de hoje: TODA MULHER É COMÍVEL


Entre o metrô e minha casa, ando uns 10 min, geralmente escutando musica. Dessa vez estava ao som da nossa diva linda Conka, quando, de repente, escuto atrás de mim o seguinte diálogo:
- Ela mora ali naquela ladeira que a gente passou. A casa vai tá vazia, aí rola, pô 
- Sim velho, mas calma, eu tenho que ver as coisas como são, sei lá, se ela é comível né..
- Não tem isso não, toda mulher é comível !
- É...
Pra sorte deles, eu virei imediatamente, olhei nos olhos desses dois meninos de aparentemente 15 anos, iniciando suas vidas sexuais, e com muita tranquilidade disse:
- Vocês sabem que dessa mesma maneira que vocês estão falando, outras pessoas falam de suas mães, suas irmãs (se tiverem) e de todas as suas amigas. Né ?

Para a minha surpresa, tinha uma menina ao lado deles, em silêncio desde que eu comecei a escutá-los e assim permaneceu, no seu canto, acredito que fosse amiga porque parecia ter a mesma idade e estavam com a mesma farda de escola. No final do meu questionamento, respirei mais uma vez e olhei dentro dos olhos dela que foram se abrindo e dirigidos, com o cabeça menos baixa, aos meus. Todos ficaram sem palavras, apenas com os olhos meio arregalados, surpresos e sem reação. Coloquei de volta os fones e segui meu rumo.
Segui imaginando que tipo de homens eles serão. Se vão virar adultos sempre disponíveis para se relacionar sexualmente, inclusive, quando não estiverem tão afim. Se gozarão sempre (caso não broxem) sem nem se importar se a parceira está sendo também satisfeita, que dirá, se ela gozou. 
Se gozarão em 4 min e acharão que o sexo acabou, sem nem se preocupar em tentar controlar a sua super precoce ejaculação (não estou falando de distúrbios). Se irão insistir para transar sem camisinha mesmo sem ter a mínima garantia que essa mulher não possui alguma DsT(muitas pessoas não fazem ideia se contraíram ou não DsT's). Se irão continuar praticando sexo inspirados em pornôs que, estrategicamente, para enquadrar a penetração, deixam os corpos quase sempre afastados (como se fosse possível gozar sem o atrito com o clitóris); Se vão achar que sentem mais desejo e necessidade de esvaziar os ovos do que qualquer mulher e que isso é natural do homem ? (...)
E essa menina ? Caso venha ter relações heteronormativas, será que vai achar que a manutenção do prazer do homem é mais importante que o seu? Vai ceder ao não uso da camisinha só por pressão, mesmo sem confiar realmente no parceiro ? Vai achar que é aceito fazer menage, podendo até ceder mesmo sem ter tanta vontade assim pelo namorado, mas nunca nem passará pela sua cabeça transar com dois homens e como isso deveria ser tão naturalizado quanto? Vai se dispor a fazer posições que não se sente confortável e segura, e achar que tem obrigação de realizar garganta profunda e ser banhada de gala como se fosse Xuxa passando monange? Será que essa menina vai se julgar e julgar até mesmo suas outras amigas pela quantidade de parceiros ? Será que ela vai acreditar que todo homem que procura ela é porque a acha uma pessoa interessante e no mínimo quer compartilhar bons momentos (sim sim sim, pode ser " só sexo", sem um pingo de moralismo, mas estou falando de compartilhar e não objetificar!)? Será que ela vai fingir que gozou só para não desapontar o ômi e mostrar o quanto ele transa mal ? Ou pior, vai fingir que gozou para adiantar o final da relação de tão entediada e seca que ficou ? Será que ela vai achar que é de boa não gozar de vez em quando, sendo que o parceiro sempre goza ? Será que ela vai ter coragem de ser protagonista do seu real prazer e exercitar o auto-conhecimento para avaliar criticamente se o que faz e deixa de fazer, se o que gosta e deixa de gostar é uma descoberta individual ao mesmo tempo que é também compartilhada ? Vai entender o que é apropriar-se de seu corpo e emancipar-se de fato? 
Espero, sinceramente, que outras mulheres que já estão processando ou ao menos se questionando sobre os privilégios masculinos e os dados falsos privilégios femininos cruzem o caminho dela e, principalmente, o daquela menina que quase esquecemos, a do começo da história, que quando não é totalmente invisibilizada é categorizada como comida fácil. Aquela mesma da ladeira.

O bolo de aipim de minha mãe


Passei o dia do são joão sem minha família, normal, todxs tinham viajado e eu só viajaria no dia seguinte. Senti falta de dançar forró, comer amendoim e em especial...comer o bolo de aipim de minha mãe (é o melhor que já comi na vida, sério). Para minha surpresa, cheguei em casa ontem e lá estava ele, coberto com um pano de prato, encima do fogão. Meus olhos brilharam, tipo desenho animado, fui logo pegando um pedação e a cada mordida fui pensando cá com meus botões o quanto aquele momento era recheado de memórias e quanto o simples ato de comer me fazia refletir e resgatar tantos sentimentos. Continuei pensando...lembrei de duas frases que dizem que " cozinhar é um ato revolucionário " e "cozinhar é uma forma de dizer eu te amo ". E num é que é verdade ? Minha mãe cozinhou a vida inteira para mim e meus dois irmãos, inclusive nos nutriu com seu leite (nosso primeiro alimento). Quando virei vegetariana a uns poucos anos atrás ela já fazia lentilha, ervilha e feijão com verduras e sem um pingo de carne (sim, também são os melhores que já comi!). Já conversei com ela que não precisa gastar tempo cozinhando nem pra mim, nem pra ninguém, afinal, somos crescidos e ela está terminando sua graduação em Artes Visuais e trabalhando. Não posso esquecer que meu pai, apesar de nunca ter sido chegado ao fogão, por questões evidentes de divisões de papéis de gênero (pai - ômi - trabalha o dia inteiro pro sustento; mãe - deixa sua carreira, vira dona de casa e cuida dos três filhos E de todos problemas da sua família), ele é responsável pelo café da manhã, compra raízes, frutas e verduras semanalmente aqui na quitanda da esquina. Quando durmo em casa acordo no outro dia com tudo pronto e de quebra com minhas frutas separadas num saquinho com guardanapo pra eu levar pra faculdade. Só porque comi o bolo de aipim de minha mãe pensei nisso tudo. Sabe que mais eu pensei? Que cozinhar, desde o tempo ancestral é uma atividade promovida e dominada por mulheres, mas que hoje existem muito mais homens com cargo de chefe de cozinha do que mulheres. Isso não é louco? Uma tarefa estruturante de nossas vidas e que mantém outras vidas é desvalorizada por tantos anos, mas só porque os homens decidiram cozinhar, ocupam os melhores cargos nessa profissão. Não quero terminar esse rascunho de pensamentos culinários indignada com mais uma manifestação machista da nossa nobre sociedade patriarcal, então, vou terminar pedindo a todas minhas amigas e amigos que se dizem feministas e pró-feministas, que acreditam na equidade e na emancipação das mulheres, que olhem a sua relação doméstica. Não adianta levantar mil bandeiras e ter um belíssimo discurso se não conseguimos observar nossa relação com nossas mães, se achamos que "ajudamos" na organização e manutenção do lar. NÃO! Não temos que ajudar, temos que FAZER, valorizar e retribuir imensamente qualquer ato de carinho e cuidado que vem delas. Eu estou no caminho, caminhando, ainda falta muito. Mesmo porque sempre fui revoltada por não poder ficar até tarde na rua brincando e conversando, mas ter a obrigação de fazer um pouco de tudo dentro de casa e meu irmão não. Então na minha cabecinha e na cabecinha de muitas crianças, fazer qualquer serviço doméstico é algo menor e meu irmão era privilegiado por minha mãe e por meu pai. Sem saber eu que saber cozinhar, limpar, organizar e cuidar de nós mesmas e de nosso lar (seja lá qual for e com quem for) é algo básico, importante e essencial para nossa sobrevivência na vida adulta. Por que se vc não faz isso, muito provavelmente uma mulher irá fazer por você.